Dica de livro: No Escuro - Elizabeth Haynes

Depois de um certo tempo ~distante (porque a gente se forma mas a vida segue corrida) e com muita saudade de escrever para o blog, finalmente cá estamos. E vamos falar sobre dica de livro porque eu realmente não podia deixar de escrever sobre No Escuro.

Há algum tempo atrás, escrevi sobre Amor Amargo, da Jennifer Brown. Quem me conhece sabe que tenho um interesse imenso pela questão da violência, principalmente no que se refere à violência de gênero. Sempre estudei muito e também tive a oportunidade de estagiar em uma Delegacia da Mulher – experiência de valor imensurável tanto em minha vida profissional, quanto pessoal.
Ou seja, ouvi bastante coisa. Casos pesadíssimos.
Raramente algum livro sobre esses temas consegue me deixar realmente mal. Comumente me sinto indignada, um pouco chateada, mas mexer mesmo comigo, lá no fundo, me deixar angustiada... dificilmente acontece.

Mas No Escuro acertou em cheio uma bomba de sentimentos dentro de mim.

O livro foi escrito por Elizabeth Haynes e, em resumo, conta a história de Cathy (Catherine) que se envolveu em um relacionamento extremamente abusivo no passado, com Lee, e que vivencia sintomas de TOC e Stress Pós-Traumático em sua vida atual. Lee era policial e foi condenado a 3 anos de prisão, enquanto Cathy se mudou para outra cidade para tentar recomeçar a sua vida.
(Imagem da internet)

O principal ponto forte do livro é o fato de ser escrito em capítulos revezados entre passado-presente que descrevem de forma impecável todas as vivências de Cathy – tanto no que diz respeito ao desenvolvimento do seu relacionamento com Lee, no passado, quanto aos comportamentos obsessivos relacionados ao TOC. A escrita é tão clara, tão descritiva, que constantemente me deixou sem fôlego, me fazendo lutar entre a vontade de largar o livro de lado e o fato de não conseguir parar de ler.

Todos os aspectos de um relacionamento abusivo estão claramente presentes na história – agressão física, violência psicológica, estupro. A forma com que os acontecimentos são colocados de forma escalada, com comportamentos banais se tornando comportamentos claramente violentos e intimidatórios (principalmente o stalking) é incrível. Além disso, a narrativa intercalada passado-presente nos permite visualizar de forma muito clara a ligação entre os sintomas atuais de Cathy e os comportamentos passados de Lee (o que, para uma graduada em psicologia é um prato cheíssimo, não é mesmo?). 

Acho de uma importância imensa livros que tratam sobre essa temática serem escritos em primeira pessoa – o que assim como em Amor Amargo nos permite acompanhar os pensamentos e os dilemas mentais da personagem principal frente às violências sofridas. 
“Se eu disse não? Não dessa vez. Se ele me estuprou? Não exatamente, não dessa vez. Afinal de contas, eu abrira a porta para ele. Mais cedo eu fora à boate com a intenção de fazê-lo me comer. Era o que ele estava fazendo agora, e achei que não tinha o menor direito de me queixar. Mas machucou. Ficou um corte na parte interna do lábio, de quando sua boca invadira a minha; no dia seguinte eu me sentia tão dolorida que mal conseguia andar. Mas ele estava de volta, pelo menos por algumas horas; quando acordei, de manhã, ele já havia ido embora.”
No Escuro é forte, é pesado, revira o estômago. Nos aflinge, principalmente por sabermos que é possível, que acontece - todos os dias, o tempo todo. Por nos mostrar um nível de controle imenso que uma pessoa pode desenvolver sobre outra, por nos mostrar a importância de que alguém acredite em você - esse último aspecto sendo de extrema relevância na narrativa do livro, que demonstra claramente a ideia do "você está louca, a culpa é totalmente sua".

Não quero finalizar sem ressaltar a importância desse livro no que diz respeito ao TOC e ao Stress Pós-Traumático. Não pretendo me adentrar na descrição dos termos e aspectos científicos, porém a forma com que Elizabeth trata a questão em seu livro é simplesmente genial. O sofrimento de Cathy com seus sintomas obsessivos fica claro e passa para o leitor. A angústia, a ansiedade dos comportamentos, todos esses aspectos são sentidos através da forma com que são descritos. Achei de extrema importância a abordagem desses transtornos, principalmente levantando que podem ser consequência da exposição do indivíduo à relações violentas. Além disso, Haynes aborda a temática descrevendo o antes e o durante - abordando até mesmo os aspectos de tratamento dos problemas.
"O tempo todo, noite e dia, meu cérebro gera imagens de coisas que aconteceram comigo e coisas que podem acontecer. É como assistir a um filme de terror repetidas vezes, sem nunca se tornar imune ao medo. Quando consigo fazer tudo direito, na ordem certa, fazer minhas verificações corretamente, seguir o ritmo certo, então as imagens somem por algum tempo. Se eu conseguir sair pela porta tendo certeza de que minha casa está protegida, então disponho de algumas horas em que a pior sensação que tenho é a de um vago desconforto, como se algo estivesse faltando e eu não conseguisse saber o quê. O mais comum, porém, é eu fazer o melhor possível com as verificações e, supondo que eu consiga sair de casa, passar o restante do dia me martirizando, pensando se realmente fiz tudo certo. Nesses casos, meu dia todo é preenchido por essas imagens do que pode estar esperando por mim quando eu voltar para casa. Se eu não escolher um itinerário de volta diferente toda noite, fico achando que alguém vai me seguir. Dá pra imaginar viver assim? Não é nada agradável."
Aparentemente eu não sou capaz de parar de dar estrelinhas para esse livro.

Sem mais delongas, é por isso que digo, repito, reforço - e escrevo essas dicas de livros sobre o tema: precisamos falar sobre comportamentos abusivos e precisamos parar de romantiza-los. Não é amor. Não é preocupação e cuidado. 

A solidão de quem se encontra em um relacionamento violento é ressaltada constantemente na história. Assim, concluo: vamos nos ouvir e vamos tentar nos ajudar. 

Somos nós por nós.

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