Independência não é eufemismo de egoísmo

Há muito tempo meus amigos me diziam para assistir uma série de TV provavelmente conhecida por todas as pessoas que vivem neste universo, chamada How I Met Your Mother. Demorei, mas finalmente dei uma chance.

De cara, conheci e amei Robin Scherbatsky.

E logo percebi que eu era uma das poucas exceções. Robin não é, nem de longe, a personagem favorita da série – apesar de ser uma das principais da trama. Eu remoí esse texto na minha cabeça durante muito tempo, mas ontem, enquanto lia um comentário aleatório em uma foto da personagem no facebook, eu percebi que nós realmente precisamos falar sobre Robin Scherbatsky.

Pros que nunca assistiram a série (ou para aqueles que vieram de outro planeta e nem ouviram falar da mesma), How I Met Your Mother é uma série de comédia (tecnicamente), com cinco amigos que vivem suas vidas e estão sempre em um bar. Resumidamente, a série acontece conforme o Ted conta para seus filhos como ele conheceu a mãe deles – e com isso também conta como conheceu todos os outros personagens da série e tudo o que eles passaram juntos, ao longo dos anos.

Mas vamos ao que é importante para esse texto: Robin e Ted se conhecem logo no primeiro episódio da primeira temporada. Ela é uma jornalista, apaixonada pela carreira, que mudou do Canadá para New York exatamente com o intuito de conseguir um bom emprego e alavancar a vida profissional. Já Ted é um arquiteto, romântico incurável, com o sonho de encontrar a mulher da sua vida, casar e ter filhos.

Deixando de lado meu nível imenso de identificação com a personagem em muitos aspectos, vamos falar sobre o ódio geral existente pela mesma e o que ele representa. Porque sim, ele representa alguma coisa – e não é pouca coisa, não.

Robin não quer ter filhos e não sonha em casar. Quer uma carreira bacana, quer viajar o mundo, não se mostra dependente de ninguém. Mora sozinha e gosta – muito – disso: do seu espaço, da sua individualidade – e essa questão se mostra relevante até dentro dos seus relacionamentos, nos quais ela sempre tenta continuar sendo um indivíduo, com suas vontades, suas particularidades e não apenas uma metade, ou extensão, da outra pessoa. Mas fica muito claro que as pessoas não estão prontas para lidar com a independência de uma personagem feminina como essa.

(imagem da internet)

Há uma cena em que dois personagens da série – Lily e Marshall – que formam o casal mais dependente que eu já vi em toda a minha vida, estão conversando e Lily diz: “A Robin é... qual é o eufemismo para egoísta?” e o Marshall responde: “independente”, e ela responde: "isso mesmo". Essa cena diz muito sobre o que as pessoas, num geral, esperam de um relacionamento e o que veem como ideal – de comportamento e de relações. Lily e Marshall, como eu disse, são completamente dependentes. Separados, eles não existem e isso é um fato. Mas as pessoas adoram, as pessoas idolatram, as pessoas falam sobre como sendo o modelo que todos deveriam seguir.

Enquanto isso, Robin é egoísta. E o mais importante: Robin não merece o amor do Ted.

Robin tem defeitos, sim (ainda bem!), pisa na bola muitas vezes sim – como todos nós. Mas as críticas relacionadas a ela seguem sempre a mesma linha - e sempre giram em torno do fato de que ela “não merece o Ted”.  Eu amo o casal Ted e Robin. Amo muito, também contrariando todas as opiniões gerais (aparentemente, ser do contra é minha especialidade). Mas eu não vejo ninguém falando sobre como o Ted é carente e o quanto ele não consegue ficar em paz consigo mesmo, sozinho, sem ninguém. Eu não vejo ninguém usando a mesma força que usam para criticar a Robin, criticando o Barney pelos comportamentos extremamente machistas e SIM egoístas que o personagem tem. Até agora eu não vi ninguém indignado com o fato de que, quando a Lily quis fazer um intercâmbio para realizar um sonho, Marshall preferiu terminar o relacionamento – e ela não aproveitou nem um pouco a viagem, assim como ele não saiu de casa por mais de 50 dias.

A realidade é que ninguém está pronto para lidar com uma mulher que sabe o que quer e não pretende mudar de opinião. Ninguém está pronto para lidar com relacionamentos que sejam partes individuais que formam um conjunto e não metades de alguma coisa.


Robin Scherbatsky ser independente incomoda. Assim como as mulheres independentes da vida real incomodam também. Não é à toa que, constantemente, estragam nossas personagens femininas que costumavam serem incríveis, para colocá-las em relacionamentos que, se não fosse um escritor machista e sem noção incapaz de seguir uma linha de personalidade feminina forte, elas jamais teriam se envolvido (vide Alana Bloom em Hannibal, Liz Keen em The Blacklist, etc). A mulher independente, segura de si, só pode ser infeliz: ou por não ter um relacionamento, ou por não ter um filho, ou por conseguir ser feliz sozinha.

O ódio à Robin Scherbatsky possui uma relação imensa com o ódio à liberdade feminina.

E nós precisamos, sim (e muito!), falar sobre isso.

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SOBRE A AUTORA

4 comments:

  1. Adorei esse texto! Acho tão importante termos esse tipo de reflexão nas séries/filmes que assistimos. A forma que os relacionamentos são retratados como ideais ou como uma mulher é enquadrada em um "modelo" que não é real, é algo que deve ser debatido. Quanto mais colocarem na tela que mulher independente tende a ficar sozinha ou afastar seus parceiros, mais pessoas irão acreditar que isso é algo errado COM A MULHER. Tem que mudar isso aê.
    E ainda bem que vejo essa mudança acontecendo (Thanks Shonda) fruto de debates como esse.

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    1. Exatamente! Ninguém olha pro cara, ninguém fala dele. Tudo cai em cima da mulher e é sempre culpa da independência da mesma. O jeito da Robin faz com que as pessoas digam que ela não merece o Ted e eu fico incomodada demais com isso.
      A Shonda tem tido um papel importantíssimo mesmo. Mas a gente precisa discutir também, porque infelizmente a Shonda faz só três séries atuais, quase todas as outras estão carregadas de mulheres deixando de ser quem são por relacionamentos, mulheres sendo retratadas de forma distorcida, enfim, exatamente como você falou.
      Que bom que você gostou! <3

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  2. mulher!!! palmas!! summer de 500 dias com ela tem esse mesmo exemplo. "A summer é uma vadia", vadia por que? por que não correspondeu as expectativas que o Tom criou em cima dela? Essa é a mesma expectativa que as pessoas criam em cima das personagens femininas e das mulheres em geral. As pessoas não conseguem entender que não existe nada de errado em uma mulher não desejar depender de um homem e fazer dele a sua vida. Tenho pavor disso! Mas pro resto do mundo parece ser tão normal né?
    Tava vendo uma entrevista da Ellen Pompeo onde ela dizia que um dos motivos dela continuar em Grey's Anatomy, é o fato de que ela já está com certa idade e sabe que se forem dar outro papel pra ela, será sempre algo do tipo "a namorada de fulano, a esposa de ciclano"e etc, e não teria o papel de uma mulher tão forte como no atual. E é bem isso. Parece que as pessoas só vão aceitar bem as mulheres se elas tiverem uma homem ao lado. Personagens como Cristina Yang e Robin são exemplos pra mim. Queria que as pessoas as vissem como as mulheres fortes, incríveis e dedicadas que são.
    Amei forte texto! Me senti acolhida por ele por que é incrível o odio que sentem pela Robin e eu me identifico super com ela! hahaha Parabéns, messsssmo, mulher!

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    1. Que comentário maravilhoso de ler!! Desculpa a super demora, não recebi notificação dele!
      É exatamente isso que você falou! A sociedade não sabe lidar com a independência feminina (não a toa temos candidatas a vereadora ganhando eleições com discurso de que mulheres devem ser submissas aos homens).
      Todo mundo vê como normal a dependência feminina ao homem porque é o esperado da mulher, né? Quando negamos esses padrões, rompemos com esse status quo da sociedade. Mas problema da sociedade, nós temos que ser exatamente como nos sentimos bem :) é uma luta diária, mas sigamos!
      Fico muito feliz que você tenha gostado do texto! Amo a Robin e também me identifico muito com ela. Eu sempre senti esse ódio todo a ela me atingir de certa forma, também.

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