BAILE DA VOGUE: Tá na moda ser preto?

Ontem (28), tivemos o Baile da Vogue.  Aquele baile de carnaval dos chiques e famosos que nós só acompanhamos de longe, porque nunca teremos a oportunidade de ir. O tema era “ÁFRICA POP” e gerou polêmicas. O que seria “África Pop”? Isso tudo seria apropriação cultural? O que é, de fato, essa tal apropriação cultural? Quem pode e quem não pode usar essas “fantasias”?  Tá na moda ser preto?

Vamos começar pela APROPRIAÇÃO CULTURAL. 

O que é a apropriação cultural? É o uso de alguns elementos específicos de uma cultura x, que costuma ser marginalizada por um grupo de cultura y que tem privilégios sociologicamente falando e segrega este primeiro grupo. Note que falamos de culturas, de grupos sociais específicos e não de individualidades.

Sim, todos os brancos são opressores, assim como todos os homens são opressores. Não importa se você tenha amigos, parentes, ídolo ou o a pessoa próxima que for “de cor”. É uma questão social.

Continuando, imagine que esse elemento específico tenha um significado, um valor muito importante pra esta cultura oprimida, que seja um símbolo de luta, de tudo que eles lutaram, sofreram e foram segregados. Este elemento que para o povo branco é alvo de chacota, ódio e todos os tipos possíveis de opressão. Então esse elemento é pego por uma pessoa branca. E nessa pessoa branca os outros passam a achar legal, bonito, inovador, tendência. Tem um exemplo muito bom e bem didático que diz: “apropriação cultural é você fazer uma prova e tirar 0 e seu amigo, que colou de você, fez a prova idêntica, sem tirar nem pôr, recebe um 10”. É isso que acontece.

Quem decide o que é apropriação cultural? As pessoas oprimidas. Elas e apenas elas podem decidir se é ou não.

O baile da Vogue foi apropriação cultural? Sim, foi. Ah, se foi.

Por que? Por ter um público, em sua maioria, branco e, num geral, rico, usando como adereço, fantasia e diversão toda uma cultura de um continente que por anos e anos sofreu e sofre ainda muito com a opressão social, segregação, racismo, por conta de religião, enfim...  Inúmeros motivos e brincar com isso. A África, o continente africano, não é um elemento pop a ser vendido, comercializado ou explorado dessa maneira.

No nosso país, apesar de ter um grande número de pessoas negras, maior que o de pessoas brancas, ainda sofremos com racismo, em diversas formas. E apesar, também, de existirem vários artistas, cantores, atores... Enfim, pessoas negras famosas, há a falta de representatividade. Porque essas pessoas, em sua maioria, não têm o talento explorado como deveriam, não têm chances de aparecer, são extremamente marginalizadas (especialmente os músicos) e, claro, atores representam sempre papéis de pobres e empregados. Então, a Vogue BRASIL, usando desse tema que dizem eles “celebrar a cultura africana/negra” num país onde os negros não são valorizados, nem os ricos e famosos, é uma tremenda falta de respeito.

Ilustração do Ribs, disponível aqui.

Neste baile também está explícita a hiperssexualização da mulher e, em especial, da mulher negra, visto que as caracterizações usadas por essas mulheres são, em grande maioria, com muita transparência e nudez (Vide Sabrina Sato).

Como o blackface (ou seja: pintar o rosto de preto) é crime, ninguém realmente pintou o rosto de preto, mas houveram inúmeros bronzeados artificiais e maquiagens de tons mais escuros para tentar “representar” o negro.

Em tempos onde o movimento e a militância negra está cada vez mais ativo, mais preocupado, mais empoderado, acaba por parecer uma piada de mal gosto extremo essa festa, esse tema, para branco se fantasiar de negro.


A cultura negra, indígena ou as outras que eu citei antes não são elementos da moda, não são descobertas do mundo fashion. Elas já existiam antes, elas sempre foram desrespeitadas e não é o momento nem a hora de decidir ganhar dinheiro ou se divertir por uma noite em cima delas. Respeito é uma palavra que a cada dia que passa se esvai do vocabulário de todas as pessoas do mundo. Assim como a empatia, não faça com os outros o que não gostaria que fosse feito com você. Se ponha no lugar do próximo, não roube suas culturas, seus elementos de luta pra usar como mero adereço.

Taís Araújo, Juliana Paes e Glória Maria, três mulheres negras que arrasaram no baile. Taís representa a fauna e a flora africanas, enquanto Juliana representa Iemanjá.


Por fim, deixo alguns links úteis para saber mais sobre o tema:


https://www.youtube.com/watch?v=o73oVBJVM2MVamos falar sobre: APROPRIAÇÃO CULTURAL” de Nataly Neri 

https://www.youtube.com/watch?v=CyDAceq6NvQ  “Dont cash crop my cornrows” de Amanda Stenberg


http://www.geledes.org.br/esta-na-moda-ser-preto-desde-que-voce-nao-seja-preto/ “Texto: Está na moda ser preto, desde que você não seja preto” de Rodrigo Teles Medrado em geledes.org.br






 SOBRE A AUTORA CONVIDADA: Rafaela Amaro, 20 anos, negra. Está no 4º semestre  do curso de  Licenciatura de Língua Inglesa e é participante do movimento  negro.

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